“A verdade é que mesmo chorando, a gente só tem o que comemorar!”

Meu mestre Caetano Veloso, no epílogo, da música Milagres do Povo disse a frase acima e que é perfeita para o dia de hoje. E vamos ao começo. Torcida concentrada, todo mundo esperando um jogo complicado, porque o “Dear John” é um excelente sacador (mas também é só isso!), as bolas do torneio são mais rápidas, a ansiedade da estréia, a pressão sobre manter o posto de número um, sobre ser o Rei do Saibro, sobre ter conquistado Roland Garros 5 vezes, enfim... pressão sobre dois ombros que sustentam o mundo.
Impressionante como torcedores e críticos não permitem a Rafael Nadal ser apenas um ser humano comum que pode desfrutar da pressão que lhe recai, da ansiedade que lhe consome e das dificuldades físicas do jogo. Não! Rafael Nadal, o touro miúra, não! Ele tem que ser perfeito, ele tem que estar leve em quadra, tem que ter milhões de jogadas imprevisíveis e soluções para todos os problemas que os adversários lhe apresentam em quadra. E, com tudo isso, ele entra sorrindo, cumprimenta o público, quer estar ali de verdade porque ama tudo e todos, mesmo que nem sempre a recíproca seja verdadeira.
O jogo começa. “Dear John”, como poderíamos prevê, aposta todas as suas fichas no saque. E saca e voleia, saca e voleia, saca e voleia.... Foi uma coisa tão irritante que se eu, pobre mortal, estivesse em quadra, teria dito: “Dear John, você sabe fazer mais alguma coisa além disso?” E felizmente, Rafa estava jogando bem, explorando as paralelas, colocando Dear John para correr e conseguiu uma quebra de saque. Vence o primeiro set. Coisa boa, torcida feliz, todo mundo voltou aos seus afazeres porque acreditou que Rafa levaria fácil essa.
Segundo set à vista. Rafa começa bem e quebra o serviço do “Dear Jonh”. Acontece que Dear John prossegue com seu jogo irritante de saque e mais saque, e saque, de vez em quando um voleio. Rafa estava jogando bem, mas cometeu o pecado capital de achar que uma quebra à frente seria suficiente para vencer o set. E eis que em uma brincadeirinha de voleio, Dear John leva o segundo set para o tie break. E imaginem o que Dear John fez em todo o tie break? Saque, saque e mais saque. Dear John vence o segundo set.
O terceiro set foi uma reprise do segundo só que sem quebra. Dear John chegou ao tie break e com suas habilidades multifacetárias de jogador de tênis sacou, sacou, sacou e venceu o terceiro set.
Quando o quarto set se iniciou, meu coração já tinha avisado: “Olha não me entenda mal, mas estou te dando um aviso prévio de 30 dias. Se você não melhorar esse comportamento, eu peço demissão.” Com um pedido tão gentil, quem não atenderia. Com calma assisti a um quarto set FANTÁSTICO. Rafael Nadal justificou porque é o melhor jogador do mundo. Mas isso dito por mim, uma fã incondicional, não tem valor algum. Deixo vocês com as palavras de Dear John sobre o quarto e o quinto set: “A forma como ele jogou o quarto e o quinto set – nunca tinha visto tênis dessa forma. Por isso que ele é o número 1 do mundo e um dos melhores da história. Ele estava me mexendo muito. Minhas pernas estavam mortas, quase tive um colapso.” Acho que quem fez a diferença nos dois últimos sets foi cada torcedor do Rafa que acreditou, que torceu e não o abandonou quando as coisas estavam complicadas. Foi um milagre do povo, do povo de Rafael Nadal (sim, eu sou dramática!). E assim Rafael Nadal vence mais um jogo. Ele veste sua jaqueta e diz ao entrevistador: “Eu prefiro vencer em 3 sets, mas partidas assim são muito boas para melhorarmos nosso jogo.” Ele sorri, agradece o apoio do público e recebe como prêmio pela vitória incrível, um batalhão de críticas e um saldo de descrédito sobre o seu jogo.A mim só resta dizer: não foi a partida que eu esperava, eu sofri, torci, mas Rafa jogou muito bem, e como dizia meu mestre Caetano Veloso: “A verdade é que mesmo chorando, a gente só tem o que comemorar!”
Um pequeno adendo: aos que adoram uma comparação, eu que assisti às partidas de Federer e Djokovic afirmo categoricamente que nenhum deles teve um adversário à altura do Dear John. Djokovic jogou com o vento (by Kelly!) e Federer jogou com um Feliciano Lopez que parecia está sedado de tão lerdo que estava. Por isso, pra mim, Rafael Nadal jogou melhor que os dois, pois teve um adversário difícil.

