"Mandela e Nadal estão conectados por sua disciplina, ambição, rigor e energia"
Família de Nadal apareceu na porta de John Carlin para escrever a primeira biografia do tenista. Nela, o jornalista Inglês e o tenista balear reconstituiram a vida dele, dentro e fora das quadras, destacando momentos memoráveis como a final de Wimbledon 2008, a realização do 'Grand Slam', a importância da Copa Davis e o vício de Rafa por azeitonas.
P - Você escreveu uma biografia sobre Nelson Mandela e outra sobre Rafael Nadal. Quais os paralelos entre essas duas figuras?
JC - Há mais coisas que os separam do que os unem, mas são duas figuras mundialmente conhecidas que alcançaram excelência em suas respectivas áreas e têm demonstrado uma tremenda disciplina,ambição, rigor e energia que investiram na realização dos seus objetivos. Em ambos os livros, há também um momento épico do esporte claramente evidenciado , no caso de Rafa é a final de Wimbledon em 2008 contra Roger Federer. Pode-se dizer que há certas conexões entre esses dois personagens.
P – Você teve sorte de viver com Rafa na privacidade de sua família. O que o senhor destacaria dessa experiência?
JC - Estou ciente de que sou um privilegiado por ter me aberto as portas de sua casa, eles são pessoas que valorizam sua privacidade. Eu falei com toda a sua família (avós, tios, pai, mãe,...) e isso me deu a oportunidade de compreender tanto o ambiente como o próprio Rafa. Fui surpreendido a sua personalidade fora de quadra que pouco tem a ver com o gladiador e guerreiro incansável que vemos quando está competindo e se mostra como uma pessoa sensível, respeitosa, educado e muito doce em sua forma de ser. Há um grande contraste entre a figura pública e desportista e ele como pessoa.
P - Além de tênis, que outras questões são abordadas nessas conversas?
JC - Nós falamos sobre futebol! Rafa é um fã de futebol, mas não só do Real Madrid e da liga espanhola, mas conhece e tem consciência da mais recente adição à Liga Alemã... Ele pode estar na Austrália, se houver um jogo importante, se levanta às 5:00 pra ver...
P - É impressionante que conta no livro que não gosta de presunto...
JC - Eu sempre defendi que o que unia todos os espanhóis era o presunto, mas Rafa, um emblema e símbolo espanhol e não gosta de presunto e nem queijo. Porém ele gosta de azeitonas. Contamos uma história sobre quando era pequeno e comeu uma quantidade incrível de azeitonas foram três dias com uma barriga dolorida. Seu vício persiste e sempre que ele pode come algumas azeitonas.
P - O currículo invejável de Nadal é só falta vencer a Masters Cup,um marco que poderá conseguir na próxima semana em Londres.
JC - Rafa quer ganhar todos os torneios que disputa, porque é uma pessoa tremendamente ambiciosa, em todos os momentos pensa em como superar-se e melhorar para alcançar um nível mais elevado, apesar de tudo o que conquistou até agora. Tenho certeza que ele gostaria de ganhar o Masters Cup, mas eu não creio que tenha a enorme importância que teve o dia de ganhar Wimbledon. Eu acho que é o momento mais glorioso de sua carreira.
P - Outro momento notável foi a Copa Davis de 2004, onde a Espanha venceu os EUA com um Nadal, que era o caçula do grupo.
JC - É um momento muito importante porque foi onde se lançou. “Tanto a Espanha como o resto mundo pensava: ‘Aqui está alguém especial”. “Esse garoto é um megacrack ”. Para Rafa é especial jogar em equipe, porque, em certo modo, é um jogador de futebol frustrado. Jogou até os 12 ou 13 anos em uma equipe em Manacor e foi muito difícil deixar a equipe para se dedicar exclusivamente ao tênis. Naquela vitória sobre Roddick em Sevilha relembra com grande felicidade e orgulho.
P - Desde que apareceu nesse ano de 2004, Nadal teve dois grandes rivais pela frente: Roger Federer e Novak Djokovic.
JC – Já a vários anos está claro para Rafa que esse duopólio com Federer mais cedo ou mais tarde iria se juntar Djokovic. Talvez lhe faltava foco, encontrar um ambiente estável, como o próprio Rafa, e agora que o tem está refletido em seus resultados. Quanto a Roger, Rafa tem um grande respeito e reconhece seu sublime talento natural. Não são amigos íntimos, porque isso Rafa reservou para o pessoal de Mallorcar, mas mantêm uma relação muito gentil. É muito bom que dois jogadores com uma rivalidade esportiva tão dura quanto a deles se tratem de uma forma tão cortês e respeitosa. Eles deveriam aprender isso em outros esportes.
P - Um dos trechos do livro discutido é a tensão observada entreRafa e seu tio e treinador Toni. Como você definiria essa relação?
JC - Duas pessoas que se conhecem intimamente sendo, além disso, uma família, uma família muito próxima e unida, que estão juntos no mundo do tênis 21 anos e sob uma pressão extraordinária. O atrito é normal, não um, não dois, mas é absurdo pensar que, no contexto em que trabalham tudo é paz, amor, risos e alegria. Que disse, eu acho que Rafa depende de Toni porque ele traz uma tensão competitiva muito produtiva para chegar ao mais alto nível. Rafa não teria sido o grande campeão que é, se não fosse pela figura de Toni.
P - Após o sucesso que está tendo esta biografia, há umasegunda parte escrito por John Carlin?
JC - Nós não falamos sobre isso. Eu acho que Rafa não voltará a fazer nada parecido com isso (publicar um livro escrito sobre ele) até que ele se aposente, que com sorte demorará muitos anos. Se chegar o momento e ele me propor ficaria encantado
Fonte: Marca.
