O outro lado da moeda
Como nem só de trevas e maus profissionais vive o mundo jornalístico, eu lhes apresento o outro lado da moeda. Um post feito por um excelente jornalista (Não, ele não é um fã!) que acompanha a tempo suficiente o mundo do tênis (ao contrário da Ilustre "repórter" Lynn Barber) para entender suas nuances.
Questão de Talento
“Vitória da força sobre a técnica”. Poucas coisas me incomodam tanto quanto ouvir comentários desse tipo toda vez que Rafael Nadal derrota Roger Federer. Seja no saibro, na grama ou na quadra dura. A frase soa como inveja, quase recalque. Menospreza o vencedor. Pior de tudo, deixa de ver e apontar méritos extremamente óbvios do atual número 1 do mundo. Qualidades que Nadal deixou muito claras mais uma vez neste domingo, ao bater seu rival novamente e levantar pela sexta (!) vez o troféu de Roland Garros.
Federer tem mais golpes que Nadal? Claro que tem. O suíço tem alternativas e pode vencer subindo à rede, dando slices e curtinhas, assim como pode dominar a maioria de seus adversários do fundo da quadra. É um gênio. Indiscutível. O espanhol, por outro lado, tem um golpe capaz de derrotar Federer. Não quero subestimar o número 1 a ponto de afirmar que é um tenista de uma bola só, mas ressaltar que este um golpe, o forehand cheio de spin, é, entre todos do circuito mundial, o que mais incomoda o gênio suíço.
Aonde quero chegar? Simples. Todo mundo sabe que aquela esquerda é mortal. Nadal vem fazendo estrago com ela desde 2005. Se todos estão cientes disso, por que ninguém consegue fazer igual? A resposta, que pode machucar olhos dos puristas e fãs do tênis clássico, é igualmente fácil de explicar: talento. Isso simplesmente não se ensina. Provavelmente, há alguns milhares de professores de tênis no mundo tentando fazer seus pupilos copiarem o movimento de forehand do espanhol. Ninguém faz igual. E já passou da hora de todo mundo reconhecer o talento absurdo de Rafael Nadal. Dez Grand Slams assinam embaixo do que escrevo.
Outro conceito que subestima méritos do espanhol diz respeito ao seu físico. “Nadal é rápido demais”. “Esse espanhol só ganha na correria”. Quem já não leu dezenas de frases assim nos fóruns por aí ou aqui mesmo, nas caixinhas de comentários do blog? No entanto, Nadal talvez nem esteja entre os dez tenistas mais rápidos do circuito. O espanhol é veloz, sim, mas seu diferencial não está tanto em alcançar a bola, mas no que fazer com ela depois de alcançada. Hoje mesmo Federer cansou de executar belos backhands cruzados, angulados, e Nadal não só alcançava, como gerava aquele efeito absurdo, cruzava a bola de volta com seu forehand e voltava para o ponto. Quantos tenistas conseguem, com consistência, executar golpes posicionados como na foto abaixo? Isso também não se ensina. É talento.
Também me incomoda ouvir Federer dizendo, a cada derrota, que o jogo é sempre decidido “em sua raquete”. Basicamente, ele afirma que ganha os pontos quando consegue atacar com precisão. Quando não o faz, acaba perdendo – como aconteceu hoje. É uma constatação bastante verdadeira, mas vem em tom de resignação, quase justificando o revés. O problema é soa como “fui eu que perdi, não foi ele que ganhou”. Ao mesmo tempo, deixa de ressaltar o que está bem nítido: os jogos entre eles em Roland Garros sempre foram assim, e Nadal venceu todos. Imagino aqui que Nadal deva estar bastante satisfeito com esse modo de jogar.
Não sou louco de sugerir que Federer passe a jogar na defesa contra Nadal. Fisicamente, o espanhol leva vantagem e não me parece que fique mais provável um triunfo do suíço em uma partida muito longa. A questão é que Nadal – e todo mundo – sabe que Federer não tem a consistência no backhand para derrotá-lo em uma melhor de cinco sets no saibro. Não o fez até hoje e é bem provável que não consiga mais. Mérito do espanhol por desenvolver armas que não deixam seu adversário à vontade em jogo algum.
Notem que uso a expressão “armas”, no plural. Sim, porque ater-me ao forehand seria uma falha gigantesca. Nadal usa bem o saque angulado do lado da “vantagem” e varia com eficiência, direcionando bolas no corpo de Federer e buscando aces. O espanhol também não é nada bobo na rede. Neste domingo, chegou em ótimas curtas e ganhou pontos. Também venceu um ponto com um incrível voleio no reflexo. Nadal faz um pouco de tudo e faz tudo isso muito bem. Plasticamente, não é o tênis clássico que muitos gostam de ver, mas rotulá-lo como “tênis força” é menosprezar e mostrar desconhecimento de um esporte com tantas minúcias.
“Intelecto notável, que se afirma por méritos excepcionais”, define o “Dicionário Houaiss” para o verbete “talento”. Não dá para dizer, então, que a força mental e a concentração de Rafael Nadal fazem parte de suas habilidades? Um técnico ajuda neste quesito – um psicólogo, idem -, mas ninguém ensina, na mais ampla definição de ensinar, um tenista a se manter concentrado e lutando durante a quase totalidade de uma partida. Mais uma vez, caros leitores, para encerrar o assunto: Rafael Nadal tem talento demais.
Agora, vamos encher a caixinha do moço com os nossos comentários! Olha o link aqui: http://globoesporte.globo.com/platb/saqueevoleio/2011/06/05/questao-de-talento/
Obrigada a @innamorata pela sugestão do texto e parabéns ao Alexandre pela serenidade e pelo profissionalismo!

