segunda-feira, 13 de junho de 2011

Entrevista Toni Nadal

Queridos mais uma entrevista deliciosa e super sincera com o Tio Toni. Ainda bem que os bons ventos jornalísticos passaram a nos arejar.

                                      “O esforço serviu para Nadal vencer e ser feliz"

O tio e mentor do número um do mundo no esporte de raquete, Toni Nadal, se considera um treinador "normal" que tem "a sorte de ter um bom jogador “.

Toni Nadal veio visitar, neste fim de semana, a ilha, a convite do Real Club Nautico de Tenerife e Radio Marca, apenas "para dar um grão de areia no desenvolvimento do tênis local" como diz o treinador do número um do tênis mundial. Ele reconhece ainda que ser tio de Rafael Nadal o ajudou na relação jogador-técnico. Não é em vão que, em ambos, se vê a mesma humildade, dentro e fora da pista, mesmo depois de serem seis vezes campeões de Roland Garros. E, Toni sempre defendeu que para ter sucesso em um esporte "não é necessário sair pisando nos outros." Pelo contrário, "ser uma pessoa correta ajuda você a se elevar", disse ele.

- O que o trouxe para Tenerife?

"Eu não tinha tido a oportunidade de vir a esta ilha e vim para contribuir um pouco para o desenvolvimento do tênis”.

- Você sabe que sua visita tem gerado grande excitação na ilha?

"Bem, digamos que eu sou um treinador absolutamente normal que tem a sorte de ter um sobrinho que tem sido um bom jogador de tênis, meu mérito não é grande e o meu maior destaque como treinador é que sai mais barato para Rafael, pelo fato de ser seu tio”. [risos].

- Mas algo você contribuiu para o segredo do sucesso de seu jogador.

"O que eu posso dizer é que temos trabalhado tendo em conta principalmente dois princípios: ter um sonho e saber que para alcançá-lo tem que se esforçar. Não é bom se esforçar só para alcançar o topo, mas para se divertir também. Rafael teve a sorte que desde pequeno é acostumado a trabalhar com grande intensidade, se acostumou a uma grande exigência em todos os exercícios. Assim, o esforço não serviu apenas para ganhar alguns torneios, mas também para ele ser mais feliz”.

- Como você decidiu se dedicar a treinar?

"Minha história é simples, eu gosto muito de tênis, desde quando eu tinha 13 ou 14 anos. Na minha cidade havia duas quadras de tênis, tentei ser um bom jogador, não consegui, ainda que não tenha sido um fracasso, pois passei muito bem tentando. Eu me mudei para Barcelona para combinar o tênis com os meus estudos, nem terminei os estudos nem consegui ser um bom jogador. Quando voltei para minha cidade, me dediquei a treinar. Fui diretor da CT Manacor e tivemos algum sucesso em Baleares, mas depois de alguns anos comecei a me dedicar exclusivamente ao meu sobrinho quando ele tinha 10 ou 11 anos. Toda minha vida eu gostei de treinar e eu tive a sorte de tornar essa paixão o meu trabalho. Eu tenho a sensação de que nunca estou trabalhando, se bem que admito que o que me incomoda é viajar”.

- Onde está o limite de Rafa?

O limite de Rafael são os adversários dele: Djokovic, Murray, Del Potro, Federer ... São eles que determinam isso. “

- Você acha que bater o recorde de torneios Grand Slam está ao alcance do seu sobrinho?

"No momento, está bem longe, porque ele tem dez e Federer ganhou 16. A realidade é que ganhar cada torneio é muito difícil. Em todo caso, estou mais satisfeito por poder ter colaborado para meu sobrinho ganhar 10 Grand Slam e 6 Roland Garros. Eu não sei quantos mais ele será capaz de vencer”.

- Seria-lhe mais fácil, se todas as finais fossem disputadas contra Roger Federer, pois ele parece ter encontrado a medida para isso.

"Bem, jogar contra Federer é muito complicado, mas é verdade que ele tem o superado em muitas ocasiões recentemente”.

 - Mas Djokovic surgiu agora mais atrevido. Qual é a razão pela qual seu pupilo não foi capaz de sair mais arejado nas finais mais recentes disputadas contra ele?

"Por causa da qualidade de Djokovic, que é um grande jogador. Se tenho boa memória, em Indian Wells, Rafael devria ter ganhado porque jogou melhor, mas parou e perdeu. Então, em Miami, no 6-5, no terceiro set, e 15-30, e a bola saiu por tão pouco que, apesar de não contar como desculpas, estava lá. E em seguida, no saibro, o outro foi melhor, talvez porque as duas derrotas anteriores, o afetaram. Em Madrid, ele foi superior, e em Roma, ainda que tenha sido 6 / 4 e 6 / 4 foi mais equilibrado. Acredito que nos momentos difíceis da partida Djokovic foi melhor, mais ou menos o que acontece com Federer contra Rafael em situações complicadas. É claro, que  nada tira o mérito de Djokovic, que é muito, muito bom ...

- Quais as opções que você vê, neste mês, de conseguir um terceiro título em Wimbledon?

Eu vejo Wimbledon complicado. É um torneio especial para Rafael, onde ele sempre vai bem, já disputou quatro finais consecutivas, perdeu as duas primeiras e venceu as duas últimas. Se você cruza com um bom sacador na primeira rodada, pode ir para casa. É um torneio que lhe dá poucas possibilidades de controle, e temos experimentado um pouco de má sorte em algumas ocasiões anteriores, perdemos para jogadores teoricamente inferiores”.

- É possível que o grande desgaste a que Rafa Nadal vem se submetendo, física e psicologicamente, pode encurtar sua carreira?

"Não, eu venho ouvindo isso há algum tempo. Rafael tem 25 anos, mas tem sete ou oito anos entre os melhores do mundo, terá sete anos entre os dois primeiros e, de fato, até o próximo ano ele terá tido uma longa carreira no Top 50. Isso sim é verdade, e estar no topo desgasta também”.

- Mas a sua capacidade física diminuirá em algum momento.

"Obviamente que sim e, de fato, diminuiu um pouco e por isso ele está mais cauteloso. Mas é a lei da vida, se você começar com 16 é normal que você acabe com 28 ou mais”.

- E há um plano B para quando ele diminuir a capacidade física? Talvez vá aumentar ainda mais a técnica?

"A técnica tem sido potencializada mais ou menos bem. Escutei muitas vezes dizerem que na quadra rápida ele não seria bom e a verdade é que, depois de Federer, ele é o melhor: Ele já ganhou dois torneios de Grand Slam (Austrália e EUA) sobre esta superfície, dois de Wimbledon e muitos outros torneios, assim mau jogador em quadra dura ele não pode ser. A técnica tem melhorado gradualmente”.

- Você acha que ele ainda tem espaço para melhorar?

"Rafa tem muito a melhorar, especialmente quando comparado com Federer. Tem um saque normal, embora tenha melhorado um pouco. Tudo pode sempre ser melhorado, mas muitas vezes evoluir tecnicamente não o ajuda a jogar melhor”.

- Pode-se dizer que o saque é o seu talento pendente?

O fato de ficar mais rápido ou mais forte, não garante a você mais êxito. Ao sacar mais forte, a bola, para se ter um exemplo, leva mais ou meio, meio segundo para ir a para voltar, às vezes é mais interessante que ela demore mais para voltar... Procuramos em cada momento ir melhorando e, de fato, na quadra rápido, hoje ele faz melhor”.

- É o treinador que tem que se adaptar às características do jogador ou o jogador que tem que seguir o que treinador determina?

"Existem diferentes maneiras de se desenvolver, em alguns casos, existe uma técnica prodigiosa e um talento nato, como o caso de Federer, que bate a bola muito bem de ambos os lados, em outros casos têm a habilidade física e outras grandes habilidades. No caso do Rafael é verdade que ele sempre foi reconhecido pela aptidão psicológica para resolver situações críticas, mas Rafael tem uma técnica singular, mas acho que tecnicamente ele é bom, porque a partir de qualquer lugar ele coloca a bola dentro da faixa, mas é verdade que no seu caso o mais notável é sua mentalidade. Ele não nasceu assim, mas ele tem trabalhado desde a infância, sempre deu grande importância à cabeça, como uma forma de se concentrar no tênis. Em cada jogo há uma maneira peculiar de se concentrar. Se em vez de treinar Rafael, tivesse treinado Federer não teria treinado tanto a cabeça, mas outra coisa”.

- O caráter e o comportamento de um jogador é um reflexo do que lhe projeta o treinador? Afirmo que tanto você quanto Rafa Nadal são conhecidos pela humildade.
"No caso de Rafael influenciaram duas coisas: ele foi uma pessoa que se deixou guiar e foi bem educado em sua casa. Tem os valores normais, que têm sempre servido em sua vida e ele os tem mantido. Não fui eu quem os ensinou a Rafa, ainda que reconheça que me incomodaria muito ter um familiar mal educado. Nós sempre procuramos fazer um trabalho conjugado com uma boa formação pessoal, porque as pessoas que têm sucesso tem que se preocupar com isso, porque hoje os atletas são uma referência para a juventude. Eu sempre soube desde o início que não teria gostado de ver um jogador excepcional que não tivesse um bom desempenho dentro e fora da pista. Ser uma pessoa correta ajuda muito. Eu sempre ouvi em diferentes áreas da vida, que para ter sucesso você tem que pisar nos outros ou ignorá-los, para mim isso não é verdade. É muito mais fácil ser bem sucedido em qualquer atividade sendo pessoa correta, porque você tem mais em mente. Se você tiver um aluno mal educado é mais difícil que ele preste atenção. Eu acho que o fato de Rafael ser uma pessoa boa tem o ajudado muito, tanto durante a formação como agora em nível de satisfação pessoal, de reconhecimento, de apoio de patrocinadores ... Não pretendia que ele fosse um modelo para a sociedade, mas uma pessoa correta. Ele é um jovem tenista e não a Madre Teresa de Calcutá, essa sim foi uma boa pessoa”.

- O que você sugere aos pais sobre o papel que devem desempenhar nos tenistas jovens?

"Não é bom que nenhuma criança tenha a pressão dos pais, mas do meu ponto de vista, estamos em um mundo onde muitas vezes nós permitimos que a criança faça o que ela gosta, e no final a criança acaba não gostando de nada . É conveniente orientar-los e sempre é melhor que gostem do que estão fazendo do que façam o que gostem. Você tem que ter cuidado e estar ciente de que o que funciona é o trabalho. Ao que se destaca sempre se lhe permite um excesso, uma resposta ruim ... Eu acredito que é muito melhor marcar as crianças com um caminho mais duro do que lhes dar tudo muito facilmente. Neste sentido, Rafael teve a sorte de ser um menino obediente, que se deixou guiar por pessoas com mais experiência e é isso que sinto mais falta hoje em muitas pessoas”.

- O fato de ser familiar de Rafa lhe dá mais controle sobre sua vida pessoal e sobre seu desempenho esportivo?

"Isso ajudou porque eu tinha uma superioridade hierárquica sobre ele. O fato de que ele não me pague para ser seu treinador é fundamental. Se ele me pagasse, me custaria dizer certas coisas.”

- Então, vocês compartilham mais coisas do que o estritamente esportivo?

"Sim, eu costumo dar conselhos, tanto pessoais como esportivos”.

- Quando é que vamos ver Rafa Nadal em uma quadra de Tenerife?

"Eu gostaria que ele viesse aqui”.

- Mallorca, onde está seu pupilo e seu amigo Carlos Moya reúne condições climáticas favoráveis ​​para praticar o esporte de raquete. Não é estranho que, as Canárias, onde até mesmo o clima é melhor, não tenha tido qualquer jogador de liderança no circuito masculino?

"Desconheço o cenário canário de tênis, embora seja verdade que há um jogador canarinho, David Marrero, que agora joga em duplas. Então há meninas como Magui Serna, Carla Suárez ...Eu fujo dos estereótipos e de dizer o que se precisa para conseguir isto ou aquilo. Quando Rafael tinha 14 anos, a Federação Espanhola de Tênis sugeriu que fôssemos para Manacor e ofereceu a oportunidade de treinar em Barcelona e eu disse que não era necessário. Você ganhar ou não depende do seu esforço, se você não é um fenômeno. Se você é um fenômeno desabrochará em qualquer lugar, e se te esforças também tem opções de se sobressair. Se apareceu um Rafael de Manacor, uma cidade de Mallroca com trinta mil habitantes, com um clube de cinco quadras, aqui em Tenerife ou Las Palmas jogadores também podem aparecer, porque em nada Rafael é um cara especial, é só uma pessoa com boas condições, mas não é um fenômeno, embora tenha sido julgado e tem boas habilidades que têm explorado bem. Então, aqui, se os técnicos têm esperança, que é a coisa principal, ao invés do tempo, no final aparece um bom jogador. Além disso, você se adapta ao que lhe falta, se quiser.

LORENZO DORTA
SANTA CRUZ DE TENERIFE